Costumava ter um desejo quase sôfrego
por livros. Perdia-me nas páginas de um livro tão facilmente que me esquecia do
que realmente me rodeava. Viajava por sítios em que nunca estive, conhecia
pessoas de todas as raças e feitios. Mais do que conhecer as personagens principais
dos livros que li, durante alguns bocadinhos, eu era essa mesma personagem. Pisava
o mesmo chão que elas, sofria o mesmo golpe que elas, alegrava-me com o
desfecho feliz que finalmente conseguiam alcançar, como se esse mesmo final me
fosse destinado a mim.
Um dia o desejo sôfrego diminuiu. Quase desapareceu. Desculpava-me e dizia que já não tinha tempo. A verdade, percebo-a agora, é que o tempo que me faltava não era para ler as letras amontoadas em cada linha. O tempo era escasso para viver a vida de outras personagens. Estava finalmente a viver o meu próprio conto de fadas e por isso não sentia a mesma necessidade de me aventurar em qualquer outro conto.
Percebo isso agora, pois quando o
meu conto não teve o final que eu esperava voltei-me de novo a embrenhar nas
páginas das histórias dos outros. Voltei a deixar-me hipnotizar pelas milhares
de letras, que juntas contam a história de alguém que ficará para sempre
imortalizado entre uma capa e uma contra capa.
Tinha saudades deste vício. Tenho
pena de só ter voltado a procura-lo nestas circunstâncias.
Mas aprendi a minha lição. A
partir de hoje passamos a viver em simbiose. Eu e as personagens que vivem
entre as páginas do meu vício. Seja qual for a minha própria história.
“I stare down at my shoes, watching as a fine
layer of ash settles on the worn leather…..” (The mockinjay. S. Collins)
E de repente também eu vejo as
cinzas…mesmo que não seja eu a personagem que está a olhar para os sapatos. E
assim começa mais uma aventura…
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