Mostrar mensagens com a etiqueta estórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta estórias. Mostrar todas as mensagens

24 outubro 2010

Uma história sobre contos de fadas (e não só)

Quando era pequena acreditava em contos de fadas. Histórias com finais felizes. A Cinderela encontrava o principe que vinha montado num cavalo branco. A Branca de Neve era salva pelo beijo do Principe Encantado. A Bela encontrava o homem perfeito que existia por baixo da pele de Monstro. A fase da infância. Onde tudo é bonito e cor de rosa, e onde existem cavalos brancos e principes prontos a salvar -nos.

Depois cresci. Os finais felizes deixaram de me emocionar. Na vida nem tudo era como nos contos de fadas. Sofriamos por aquilo que queriamos e muitas vezes acabavamos por não alcançar nada daquilo que pretendiamos. A terrivel fase da adolescência, em que achamos que o mundo inteiro está contra nós, em que a cada canto existe uma perna estendida, prestes a fazer-nos tropeçar. E eram os filmes mais dramáticos e com finais nem sempre felizes que me apaixonavam nesta fase. O anjo que se abdicou do ceú para estar com quem amava, só para depois perder tudo aquilo que ele mais queria na vida. O gladiador que no fim acabou por ser derrotado pela morte.

Cresci um bocadinho mais. E percebi que a vida é uma mistura de contos de fadas e de um mundo fatalista.

Afinal a branca de neve sofreu muito na mão da madrasta e acabou por quase morrer engasgada com a maçã. E quando tudo parecia perdido, alguém estava lá para a salvar. Afinal o gladiador acabou por ver o seu maior desejo realizado e encontrou a familia. Afinal o anjo teve tudo o que sempre desejou, mesmo que só por um momento.

Passamos a vida a errar, na esperança de um dia acabarmos por acertar. Pedimos desculpa por tudo, e as desculpas acabam por deixar de fazer sentido. Não pedimos desculpa no momento certo, e a falta daquela palavra desmorona tanta coisa à nossa volta. Sonhamos com algo que podia ser, e acabamos por nos magoar e cair redondos no chão. Não sonhamos com nada e acabamos por não ter nada porque lutar. Arriscamos e perdemos. Não arriscamos e perdemos ainda mais. Fazemos tudo para ter o nosso final feliz, mas acabamos sempre po r ter apenas o mundo fatalista à nossa frente. E mesmo assim não podemos desistir!

Porque depois da maçã envenenada vem um principe que nos salva. Porque depois da derrota vem o reencontro que sempre desejámos.

11 abril 2010

Just rage.


Não consigo pousar a cabeça na almofada, dormir alguma coisa de jeito, depois do que me disseste. As palavras dão voltas e voltas na minha cabeça, mas a meio perdem o sentido e eu vou-me com elas. Não te custava ter-me contado a verdade mais cedo. Não te custava mesmo nada. Assim, o passado já não seria uma montanha de mentiras, que me chegam a causar nojo.

Assim que saíste pela porta, numa atitude de raiva cega e irracional, queimei tudo o que tinha de ti. Pathetic me. Debruçada no lavatório, a tentar não molhar o fósforo com as lágrimas furiosas que chorava.

Quando me acalmei, mandei aquela merda toda, aquela tua merda toda, cano abaixo. Tirei um cigarro do maço. O primeiro de muitos durante o dia.

Dizes que ela te faz sentir vivo. Acredito. Sei mesmo de que maneira, seu cabrão de merda. Sei que não vai durar e vais querer voltar. Nessa altura vou ter um grande gosto em te bater com a cara na porta. Se te aleijar ainda melhor. Se sangrares e morreres à porta, juro-te que vou tentar não te pisar quando sair de casa.

O pior, seu filho da mãe, é que me roubaste o sossego. Pedi-te que me deixasses sozinha e em paz. Quiseste ter-me. Quiseste construir todas aquelas patetices comigo. Querias ter filhos...

E assim, sozinha, sentada à mesa da cozinha e a olhar através da janela, a olhar para o mundo que se continua a movimentar, não percebo.

Ainda ontem me amavas... que aconteceu?

14 março 2010

pensamentos em remoinho VIII

Pegou nas chaves de casa e foi dar uma volta. O habitual, no meio do seu caos pessoal.
Procurava esquecer. Vencer-se pelo cansaço. Acima de tudo não pensar.
Aproximou-se da ria e quando atravessava a ponte viu-o. Trazia uma mala na mão. E no meio do seu caos pessoal conseguia perceber que estava tão confuso como ela. E no meio daquilo tudo, teve uma vontade estranha de se aproximar dele. E de perceber o que se passava com ele. Porque com ela nada estava bem e, de certa maneira, percebia o que era o seu desespero. Imaginou mil cenários num rasgo de segundos. Das inúmeras possibilidades que o faziam balançar a pasta na mão, ao pé da ria. Distraído. Teve uma vontade estranha de se aproximar dele. De que de uma maneira, também ela estranha, ele estivesse destinado a fazer parte da sua vida. Estranhamenete e ridiculamente. Como sempre eram as suas histórias, os pequenos dramas imaginados, que escrevia num qualquer espaço da sua mente, à falta de papel. Desde pequenina.
Mas não o fez e, estranhamente, por cada passo que dava na direcção oposta, crescia uma dor no peito, que não sabia explicar. O pensamento que ele pertencia num qualquer espaço da sua linha de vida tinha-se transformado em certeza, entranhara-se em si. E desesperadamente, naquele momento somou mais uma tristeza, que lhe pesou no peito e tornou o caminho para casa ainda mais negro.

23 janeiro 2010

Broken

Onde estou agora?
Olhei há pouco para o miúdo. Estava a dormir. Tinha as mãos encostadas à cara e um sono perturbado. Eu tirei um cigarro do maço, um dos poucos que sobram, e pus-me a saborear o doce alívio que ele me trazia. Só naquele momento, é certo.
Há dias que andamos a viajar. A correr. A fugir.
Como se escapa da realidade? No sonho?
O miúdo já nem isso tem. Ontem contou-me uns dos pesadelos recentes. Vi nele o reflexo da marca que a vida lhe deixou.
À noite chorei. Não fui capaz de lhe dar um melhor destino. Como é que um pai, que ama um filho e o quer proteger de tudo, encontra alívio, quando tudo aquilo que aconteceu, foi o que não prometeu no seu primeiro sopro de vida?

Porquê tu? Porque é que um miúdo tão especial como tu, teve de viver esta vida? Saber tão cedo o quão horrível é?
Por mim, já não sinto nada. Há muito que não o faço. Para não encontar na minha pele o cheiro do medo e da repugnância. Já há muito tempo que estou estragada. Há muito tempo que apenas vivo por ele. Porque não consigo ser cobarde e desligar-me de ti.

É neste amor que partilho contigo que acredito. Não aquele que inúmeras vezes me magoou. Me deixou estendida no chão a sangrar. Aquele que explorou o meu corpo e a minha alma. Me deixou vazia tão cedo.

Miúdo. Onde estamos agora?
Talvez o longe possível do passado. Provavelmente a viver. Mas tenho certeza que melhor.
Melhor miúdo. Isso prometo-te.
Deito-me ao teu lado. Já não durmo. Tenho medo que a realidade se aproveite e me apanhe desprevenida no sonho.
Aninho-me a ti e tenho a certeza das minhas forças. Já não durmo.

16 janeiro 2010

Pensamentos em remoinho I

À medida que te foste distanciando, percebi que tinha perdido a pessoa da minha vida. A pessoa certa, naquele momento.
Mas nao te podia ter ou sequer lutar por ti, porque tu não querias.

Teria adorado ter-te dado toda eu. Da forma mais íntima que me pedisses. Sem pudor, sem ter medo de ser rídicula.

Teria trocado as minhas botas velhas por saltos altos, no nosso primeiro encontro.
Teria deixado os palavrões em casa e trocado o meu sorriso cínico pelo olhar de adoração dos apaixonados.
Teria feito caracóis e pintado as unhas da cor que tu adoras.
Teria deixado de ser eu, para me tornar tua. E o quanto teria adorado.
Não querias. Não queres.

Às vezes amar é saber deixar a pessoa ir. Mesmo que doa. Mesmo que seja para os braços de outra qualquer. Mesmo que nunca tenhas sabido o que é estar nos meus.

Adeus pessoa certa. Deste momento...






(Adaptado de um texto meu de 4/Out/2009)